Grito Pai

Qual o público desse filme?

Não Mais! não foi escrito para agradar o brasileiro televisivo e noveleiro, de fé protegida em dez por cento de culpa e uma mentira no bolso. Ou os homens e mulheres de bem, mestres em apontar dedos, como cães de caça e saliva grossa quando cheiram um coelho perdido no mato. Não Mais! é sobre eles. Sobre esses que falam em línguas sem sentido na igreja, para apedrejarem sem culpa a puta, o louco e o espelho. Sobre o constante ódio morno nadando cautelosamente abaixo das frases de ordem e julgamentos morais. O rico. O pobre. O alguém e aquele que nunca estará além de um chinelo roto.

E pra quem é esse filme? Para aqueles que desprezam o Antigo Testamento, mas olham o Novo com a curiosidade e tristeza de quem encontra um animal majestoso e nunca visto, morto e abandonado, em uma estrada de uma cidade sem nome.

Espelho

Uma obsessão em trinta e um minutos.

Foi mais de um ano em algo não devia levar mais de um mês. Foi uma dieta que começou com apenas um ovo por dia, e terminou em compulsão alimentar grave, crises de bulimia, unhas fracas como papel pardo e sonhar em pé por fígado cru com molho inglês. Fiquei sem teto, morando com as minhas gatas numa barraca de camping com tela rasgada, em uma construção semi derrubada em um terreno semi ocupado cercado por canaviais, ventos quase incessantes, chuvas aleatórias invadindo minha cama improvisada, e uma sensação de liberdade que eu nunca experimentei antes. Masoquismo? Não exatamente. Foi um atalho bruto, usado por um não ator, para chegar perto de um personagem complexo além do seu talento interpretativo. Valeu o sacrifício físico e emocional? Em boa parte sim. E isso para eu, um ateu, entender um Jesus abandonado pela humanidade e em conflito com um pai onipresente, sádico e adorado por lobos.